“Deixa te contar uma coisa: que diferença faz para você e para sua vida pessoal se seu vizinho dorme com outro homem? Se sua vizinha é apaixonada pela colega de escritório? Que diferença faz para você? Se faz diferença, procure um psiquiatra! Você não está legal” (dizeres do Dr. Drauzio Varella, disponível no canal YouTube).
De acordo com o renomado Dr. Antônio Drauzio Varella, médico oncologista formado pela USP (Universidade de São Paulo), cientista e escritor brasileiro, “a homossexualidade é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados”. Ele apresenta argumentos importantes ao afirmar que a homossexualidade não é um desvio de conduta ou falta de pudor e, quem defende o contrário, o faz por ignorância, pois a sexualidade se impõe, independente da vontade ou poder de escolha da pessoa. Prova disso, segundo o médico, é que existem diversos registros de comportamentos homossexuais em várias espécies de animais, como répteis, aves, mamíferos e até mesmo nos primatas, nossos parentes mais próximos na natureza. Gorilas, chimpanzés, orangotangos e bonobos (um macaco parecido com o chimpanzé) exibem, constantemente, comportamentos homossexuais. Varella complementa que a homossexualidade deve ser tão respeitada quanto a heterossexualidade e discriminar um homossexual pelo sua orientação sexual é uma ignorância. O relato completo do Dr. Drauzio Varella pode ser encontrado no seguinte endereço na internet: https://www.youtube.com/watch?v=wCUIIDrgqn8
Essa discriminação é denominada de homofobia e, infelizmente, não se restringe a desavenças e falta de respeito, mas também a atos extremamente violentos que culminam em assassinatos, como o ocorrido no final do ano de 2016: “O adolescente Itaberli Lozano foi assassinado pela própria mãe, Tatiana Lozano Pereira, numa emboscada porque era homossexual assumido; é o que afirma a advogada, membro da Comissão da Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB – SP),Carolina Aram. Itaberli foi morto em dezembro de 2016 ao voltar para casa; a mãe do jovem confessou à polícia, em um primeiro depoimento, que matou o próprio filho a facadas; "É um homicídio qualificado, hediondo e a motivação dele foi homofóbica", disse advogada”.
Com o relato dessa história cruel e absurda, o Grupo Gay da Bahia (GGB) prestou homenagem ao adolescente assassinado nas primeiras páginas de um relatório que revela o número de pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais (LGBTs) assassinadas no Brasil em 2016. O documento foi publicado por aquela organização e se constitui em um dos mais importantes do gênero no país.
A leitura dos dados no relatório revela que 343 LGBTs foram assassinados no Brasil em 2016, o maior número registrado em 37 anos de pesquisa realizada pelo GGB da Bahia. A cada 25 horas um crime com motivação homofóbica é cometido no país. Esses dados fazem do Brasil o campeão mundial de crimes contra as minorias sexuais. “Matam-se mais homossexuais aqui do que nos 13 países do Oriente e África onde há pena de morte contra os LGBTs”. Destaca-se que os registros são subnotificados, ou seja, a realidade pode ser ainda pior.
Como se não bastasse a ocorrência, os assassinatos cometidos contra pessoas LGBTs no país são praticados com requintes de crueldade. O relatório 2016 publicado pelo GGB da Bahia destaca: “Travestis são assassinados a tiros ou espancados na rua, enquanto gays são mortos dentro de casa com objetos domésticos, como facas, fios elétricos, sufocados na cama e, muitas vezes, o crime só é descoberto após os vizinhos sentirem o forte odor exalado pelo corpo em putrefação”.
Ainda de acordo com o documento, os crimes cometidos contra minorias sexuais geralmente ocorrem à noite ou de madrugada, em lugares ermos ou dentro de casa, o que dificulta a identificação dos autores dos assassinatos. No entanto, quando há testemunhas, muitas vezes elas se recusam a depor devido ao preconceito contra pessoas LGBTs, tanto que somente em 17% desses homicídios, ocorridos em 2016, o criminoso foi identificado (60 de 343), e, em menos de 10% das ocorrências, houve abertura de processo e condenação dos assassinos.
E o cenário não é nada animador, pois os crimes com motivação homofóbica aumentaram nos últimos anos: “foram notificados 130 no ano de 2000, 260 em 2010 e 343 em 2016”. Somente em janeiro de 2017, 23 assassinatos foram registrados em 22 dias”, alertou o antropólogo Luiz Mott, responsável pelo site na internet chamado “Quem a homofobia matou hoje”.
Luiz Mott destaca, com veemência, no relatório de 2016, publicado pelo GGB da Bahia,que: “99% destes ‘homicídios’ contra LGBT têm como motivo, seja a LGBTfobia individual (quando o assassino tem mal resolvida sua própria sexualidade), seja a homotransfobia cultural (que expulsa as travestis para as margens da sociedade onde a violência é endêmica), seja a homofobia institucional (quando os governantes não garantem a segurança nos espaços frequentados pela população LGBT nem aprovam leis que criminalizem a LGBTfobia). Mesmo quando uma trans está envolvida com ilícitos – drogas, furtos – sua condição aumenta o ódio e a violência na execução do crime”. Mott ainda disse que, de Norte a Sul do Brasil, alguns repetem a frase absurda: “prefiro um filho morto a um filho homossexual!”.
A homofobia é um sentimento de ódio e, como tal, suscita a intolerância que geralmente leva à violência, o que motiva esses crimes absurdos cometidos contra LGBTs no país.Por isso, concordo com o Dr. Drauzio Varella quando ele destaca que a homossexualidade “é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados”e complemento suas palavras dizendo que também o ódio e a violência extrema se juntam a essa ignorância, pois a homofobia é um tipo de discriminação que pode matar.