Jacqueline Ruiz

Muito além de um jardim

Muito além de um jardim

Publicada há 8 anos

Semana passada dediquei-me a cuidar de um espaço que tenho no quintal, que chamo de jardim.  Um espaço pequeno, considerando toda a área, mas que despendeu quatro dias de trabalho. Retirar todas as pedras eos pequenos tufos de mato que insistiram em brotar no meio delas, preparar a terra, lavar as pedras e recolocá-las no lugar. Trabalho manual exaustivo, mas que me garantiu boas noites de sono reparador e muitos temas para reflexão. A ajuda do marido e dos filhos foi valiosa.


As bananeiras dão o tom de verde necessário, as moreias e um arbusto que não sei o nome, mas que dá pequenas e belas flores, estavam bem adaptados e só faltava um pouco mais de cor, por isso escolhi a alegria proporcionada pelos diversos tons de amarelo dos cravos-de-defunto e os rosados das zinias. Modéstia à parte, ficou belo meu jardim!


A menção da palavra jardim imediatamente faz lembrar-me do filósofo Epicuro e sua concepção para explicar um termo caro e raro, banalizado pela atualidade. A Ética.


Para melhor explicar sobre o tema pesquisei o  texto “As delicias do Jardim” e o vídeo “A Arte de viver”, do professor e filósofo José Américo Pessanha, ofertado pela amiga Naime, cuja síntese pode ser lida adiante.


Nascido  em 341 a.C, em Samos, pobre, migrante e com saúde extremamente frágil, Epicuro vive, a partir de 322 a.C, em diversas cidades da Ásia Menor, enquanto elabora sua filosofia: ‘menos um sistema de pensamento do que um sistema de vida’.  Finalmente, em 306 a.C, vai para Atenas, onde funda sua escola filosófica, o Jardim, na verdade uma confraria, ou comunidade, que admite entre seus membros também mulheres e escravos. Após uma vida marcada por ascetismo, serenidade e doçura, apesar da dolorosa doença — cálculo — que nunca lhe dá trégua, morre em 271 a.C.


 Diógenes Laércio descreve assim sua morte: “Sentindo-se morrer, ele se fez colocar numa banheira de bronze cheia de água quente e pediu um copo de vinho puro, que bebeu. Tendo exortado seus discípulos para que se lembrassem de suas lições, expirou’’.


Nas palavras de Pessanha, a escolha de Epicuro para explicar a Éticatem vários motivos, em primeiro lugar pela sua importância, embora mal conhecido e consequentemente deturpado, e por outro lado por sua extraordinária atualidade.

Ele impressionou o jovem Marx e ajudou-o na sua juventude a perceber o sentido da liberdade como libertação interior, como desalienação. E hoje ele continua importante para nós porque em grande parte a sua estética da existência é um ensino de virtuosismo pessoal para que se possa ser feliz, ser sereno, ter prazer mesmo na adversidade.


Para Epicuroo homem pode e deve procurar o prazer porque ele nasceu para a felicidade e para isso que ele está destinado.  Mas, que esse bem tem que ser conquistado distante das turbulências da sociedade e do universo político, porque a grande nau que se tem que pilotar é, na verdade a nau interior. Que a saúde da alma é conquistada pelo uso da sabedoria que aclara a vida interior. Retira daí esses obscurantismos todos e faz com que o homem a partir do conhecimento da natureza das coisas possa se posicionar e compreender sua própria dimensão e seu papel.


O sofrimento é uma contingência que não determina a vida do homem e a virtude está em autodeterminar-se, apesar do sofrimento que aparentemente vem como fatalidade.E que o homem consegue vencer pela sua postura íntima ou autarcia – que é a uma independência interior. E é isso que ele prova o tempo todo através de palavras, através de textos, mas principalmente, e sobretudo, através de uma vida.

A ética de Epicuro se fundamenta na recusa ao obscurantismo, portanto no conhecimento,  através da “philia” - a amizade -, que se concretiza no jardim com um grupo de amigos lúcidos que procuram  a liberdade interior, que se estimulam reciprocamente a permanecer nesse esforço.


O direito à felicidade, ao bem, à plenitude de vida, o direito a uma cidadania completa que coloca o homem em confronto com a harmonia do cosmos não é ai limitado, como foi a democracia ateniense séculos antes, pelas restrições que lá existiam; na democracia de Atenas embora houvesse a liberdade de construir, discutir e modificar leis, era apenas alguns que podiam fazer esse trabalho: homens, maiores, nascidos em Atenas e não escravos. Com Epicuro, o direito à serenidade,ao prazer, enfim, à felicidade é uma possibilidade aberta a qualquer um: homem, mulher, escravo, estrangeiro; estendido a qualquer época, a qualquer local, a qualquer raça.


Sua ética ultrapassa a limitação espaço-temporal da Grécia Antiga e nos convida a um empreendimento para qualquer tempo; por isso a permanência da filosofia epicurista ao longo dos séculos, e é por isso que ele chega até nós com atualidade imensa.


Escrevo esse texto em uma chuvosa tarde de sexta-feira saboreando um delicioso vinho californiano que me presenteei.


Um brinde a Epicuro e à felicidade suprema de ter: um jardim pra arrumar, temas para refletir e discorrer e amigos para compartilhar!


Recomendo que leiam o texto citado e assistam ao vídeo que foram as referências para esse texto. Seguem os links:


http://www.cinfil.com.br/arquivos/As_Delicias_do_Jardim.pdf


https://vimeo.com/130140672



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