Em 1977 fui com meus irmãos ao finado Cine Majestic assistir ao filme “The songs remains the same”. Filme dedicado ao show do Led Zeppelin, realizado em 1973 no Madison Square Garden.
Confesso: conhecia pouco o grupo. Estava a descobrir a música de qualidade. Fiquei impressionado. Ouvia muito rock, desde menino, porém, não era um grande especialista no assunto. Minha paixão maior é, e sempre será, o Blues.
Fiquei impressionado com a qualidade da música, com a qualidade dos músicos e, principalmente, com a “pegada” blues do grupo.
Quatro caras produzindo um som que é uma avalanche. A bateria pesada e melódica de John Bonham, a precisão e segurança do baixo de John Paul Jones, a usina de sons infinita e genial da guitarra de Jimmy Page e a voz de Robert Plant. O Led é orgânico. É um monólito, subdividido num caleidoscópio de sons e fúria, com os pés brancos fincados na negritude do Blues. Britânicos, são uma simbiose de um roqueiro inglês e um bluesman dos norte-americanos.
O conjunto chamou minha atenção. Todavia, não há como negar, a guitarra de Page e os vocais de Plant, encantaram-me mais.
Além do universo da música, o estereótipo dos caras...cabelos longos, representando a transgressão. Já os tinha desde então.
No grupo, minha simpatia maior sempre foi por Jimmy Page. Por causa da guitarra, da paixão pelo Blues, sua imagem...sei lá.
Assim como nos Beatles, minha escolha sempre foi George Harrison e nos Stones, Keith Richards.
Pensando bem, tendo a simpatizar mais com os guitarristas.
Até tentei ser um. Não fui longe. Escolhi estudar Filosofia.
A música exige dedicação plena. Muito estudo. Muita transpiração.
Não queria ser mais um medíocre.
É preciso tempo. Não o tinha para as duas coisas.
Escolhi.
Se arrependo? Não. Foi melhor assim.
A música talvez tivesse me matado.
Apesar de minha devoção pelo Blues e pelo Jazz, também acompanhei e curti rock.
Calma, já disse: aquilo que nomino de rock não é esse lixo que permeia o gosto (?) daqueles que dizem adorá-lo.
Rock, para mim, tem de ter aquele toque de Blues, de negritude, de dionisíaco. Afora os Stones – divindades –, parou com o fim do Led Zeppelin, em 1980. Depois, com honrosas exceções, acabou.
À medida que o tempo passou, continuei a ouvir o Led, a amá-lo. Tornei-me um grande conhecedor de sua obra – modéstia à parte –, ouvi todos os discos oficiais e muitos piratas.
A separação do grupo, após morte de John Bonham, além de um hiato de tempo, proporcionou a reunião da dupla maior do grupo: Page e Plant. Gravaram “NO QUARTER”. Um CD absurdo de maravilhoso, as composições do grupo, algumas das mais belas, foram revisitadas, ganharam novos arranjos e tonalidades. Mais maturidade e riqueza musical.
Vieram ao Brasil.
Pude assisti-los no Pacaembu, com a Jacqueline e meu irmão.
Foi apoteótico.
O Led e seus músicos envelheceram. Com qualidade.
Ao final dos anos noventa, Plant mantinha os cabelos cacheados, longos e grisalhos...Como eu.
Certa vez ouvi de meu fraterno, querido e amado amigo Matheus: “Porra! Você é a cara do Robert Plant! ”.
Um absurdo! Pensei.
Todavia, confesso – cá entre nós –, gostei.
Quem não quer ser identificado com um dos seus mitos?
Responda, sem hipocrisia.
Ao nos mudarmos para Fernandópolis, ouvi várias vezes essa ilação.
Meus filhos foram conferir. Também concordaram.
Hoje, vinte de agosto de dois mil e dezessete, Robert Plant completa sessenta e nove anos.
Fiquei sabendo em razão de minha filha Isabelle ter me ligado para contar e informar que postou em sua página no Facebook uma foto do Plant, com o comentário: “ –É a cara do meu pai...”.
Fiquei feliz.
Não se trata de uma bobagem, parecer com um mito. É mais do que isso, a semelhança física é o de menos, é enxergarem uma identificação ideológica, de sonhos e propósitos, ainda que em mundos distantes. É a identificação de posturas, de geração e de gostos musicais.
Assim: Parabéns Robert. Muitos anos de vida. Saúde e Paz.