HISTÓRIAS DO T

Quem nunca soltou uma 'Capucheta'?

Quem nunca soltou uma 'Capucheta'?

Por Claudinei Cabreira

Por Claudinei Cabreira

Publicada há 8 anos


O tempo passa, o tempo voa e já na semana que vem estaremos em setembro E como agosto ainda não acabou, vale lembrar que os antigos diziam que este era o mês do “cachorro louco” e das ventanias. Agosto sempre foi um período muito seco, era também o mês de maior ocorrência dos emblemáticos redemoinhos e dos grandes poeirões. Enquanto nossas mães se descabelavam com sujeira provocada pela poeira, nós os meninos, festejávamos a chegada das grandes ventanias porque era tempo de empinar papagaios (pipas). Eram dias de céus coloridos.


Lembro que no comecinho da década de sessenta, como ainda não sabia direito como fazer um papagaio de verdade, eu e meus amigos improvisávamos fazendo nossas famosas “capuchetas”. Bastava uma folha de papel daquelas de embrulhar pão, uma simples rabiola e um pouco de linha e lá íamos nós feitos malucos, correndo desembestados pelas ruas da periferia, tentando fazer aquelas coisas subirem ziguezagueando. Até que era divertido.


Os meninos daquela época eram criativos, ou melhor, tinham mais tempo para se ocupar na construção de seus brinquedos, até porque ainda não havia chegado a televisão e nem inventado os videogames. Então, quando não estava na escola ou no campinho de futebol, a gente juntava os amigos e montava verdadeiras oficinas criando nossos brinquedos, brincadeiras e artes de todo tipo. Aprendemos fazer as coisas na base do improviso.


Para confeccionar nossas pipas, por exemplo, bastavam algumas varetas de bambu seco que a gente ia afinando manualmente com uma faca ou uma lâmina de gilete, deixando aquela película mais resistente e flexível para dar a envergadura necessária. Uma folha colorida de papel impermeável, daqueles que eram usados para encapar cadernos e cola. Para fazer a montagem, lembro que a gente fabricava nossa própria cola usando farinha de trigo e água, só mais tarde começamos usar a famosa cola goma arábica, aquela que vinha num vidro que imitava um camelo, lembra?


Nossos papagaios ou pipas como se diz hoje em dia, se resumiam a dois modelos bem simples. O papagaio comum em formato de um losango alongado ou o modelo maranhão, quase que um quadrado. A diferença estava nas rabiolas de sustentação. Para os papagaios, os rabos eram feitos em argolas do mesmo papel, e quanto mais longo, mais equilíbrio e facilidade nas manobras aéreas. Já o modelo maranhão não precisava de rabiola, apenas uns enfeites em tiras de papel impermeável nas laterais da parte debaixo, necessários também para o equilíbrio. Até aí tudo normal.


O que fazia mesmo a diferença era o número e a quantidade de linha que cada um dispunha. Para empinar os papagaios normais a gente usava a famosa linha da marca Corrente numero 40, mais resistente que a modelo 51 com cerca de 100 metros de extensão. Agora para voos mais altos o jeito era usar a linha 24 que era bem mais resistente, usando três ou até quatro carretéis enrolados numa lata daquelas de Leite Ninho. Para empinar os maranhões, sempre maiores, era preciso usar cordonê, um tipo de linha bem mais grossa e resistente.


O bom disso tudo é que todo mundo se divertia, tentando derrubar a pipa “inimiga” que estivesse por perto, mas usando para isso uma linha mais forte e habilidade no manuseio. Naqueles tempos ninguém usava cerol como hoje em dia. A molecadinha tinha lá a sua ética, jogava limpo.


Como na década de sessenta em muitos bairros da cidade ainda não havia chegado a energia elétrica, então não havia como hoje o perigo de acidentes de pipas enroscando na fiação da rede. Havia também muitos terrenos baldios e os famosos campinhos de futebol na periferia, onde a meninada se juntava para soltar papagaios. Até na área central da cidade, mais propriamente na Praça da Matriz, que ainda era de terra e grama, o pessoal se reunia para levantar as pipas.


E a grande brincadeira daquela época era mandar “correios ou mensagens”, fazendo uma argola de papel que era presa à linha e levada pelo vento, subia até o papagaio lá em cima nas nuvens. E bom mesmo era quando o papelzinho da mensagem voltava “molhado” porque para nós, em nossa santa inocência, tínhamos a certeza que ele tinha subido tão alto, mas tão alto, que havia chegado nas nuvens. Bons tempos aqueles. Semana que vem tem mais. Até lá.




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