Dia vinte e quatro de agosto, encerrei oficialmente meu trabalho como professor de Educação Básica no magistério público oficial. Trinta e três anos e cinco meses, apenas oito meses fora da sala de aula, em razão de um presente da profissão: uma depressão. Curada graças ao Doutor João Stefanini.
Há motivo para comemorar?
Evidente, aposentar-se, vivo e lúcido, é um enorme privilégio. Todavia, é muito pouco.
Fazer um balanço dessas mais de três décadas é arriscado. Porém, farei: no geral foi inútil. Um desperdício, de tempo, energia e saúde. Ao longo desse tempo, tenho certeza, consegui contribuir na vida de alguns jovens, quer mostrando-lhes a importância da construção e viabilização de um sonho; quer contribuindo para que se tornassem leitores e donos de opinião e crítica. Creio, é muito pouco.
Não é meu intento imputar-me o protagonismo exclusivo do fracasso. Não mesmo! Fiz aquilo que era possível..., no entanto, é pouquíssimo.
Com a falta de uma política educacional séria, compromissada com a população e principalmente com aqueles que mais necessitam de uma educação pública de qualidade, é uma luta insana. É uma causa perdida de antemão. É uma luta utopicamente quixotesca, estúpida e inútil.
Convenço-me daquilo que sempre neguei: errei ao escolher essa profissão e pior, trabalhar na educação pública.
É verdade que consegui algo que poucos obtém: o carinho, o respeito de todos os estudantes. Em que pese isso trazer problemas para mim, na medida em que, como em qualquer ambiente profissional, o destaque individual, ao invés de auxiliar como exemplo ou parâmetro, produz inveja, cobiça e atitudes traiçoeiras. Fui vítima disso, há poucos anos.
Se entrar na questão financeira...É para cometer “haraquiri”. Sob esse aspecto: é burrice. Já afirmei: a qualidade da Educação Pública não melhora por que não se quer melhorá-la. É política de poder.
O futuro se reversa cada vez mais cinza, ameaçador e assustador. É o fundo de um buraco sem fundo. “A voz de Deus num poço tapado”. Diria o gênio lusitano, Fernando Pessoa.
“...o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José? “
(...)
“ Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?"
Pelas palavras do gênio de Itabira – Carlos Drummond de Andrade -, é assim que me sinto.
PS: Apenas ressalto algo impagável, incomensurável e arrebatador: o carinho, o respeito, a gratidão e o amor dos estudantes.
Sem modéstia: é para poucos.