HISTÓRIAS DO T

No meu tempo o ‘Buylling” era assim

No meu tempo o ‘Buylling” era assim

Por Claudinei Cabreira

Por Claudinei Cabreira

Publicada há 8 anos


Dia desses, trombei com uma dessas figurinhas carimbadas aqui da terrinha, um velho e bom amigo e daí fomos tomar um cafezinho para colocar a conversa em dia. Meu amigo, um sujeito importante, ilustre, bem informado, antenado com o mundo e com as coisas da periferia, reclamavadessa onda do politicamente correto, buylling, agora alei antipalmadas e outras “mumunhas” desses tempos de não me toques, não me reles. “O mundo tá do avesso e você devia escrever sobre isso”, cobrou.


E aí eu expliquei que já havia “falado”sobre o assunto aqui na nossa coluna. “Mas devia escrever de novo”, insistiu. Pois bem. Não vou repetir o texto, mas vou abordar a temática por outro ângulo, que ao final, tirando noves fora, sempre acaba dando na mesma. Então, senta que lá vem história...


Comecei perguntado pra ele; vai dizer que nunca xingou ninguém? Ele riu e botou adoçante no café. Lá pelos anos sessenta e setenta, além do apelido que você botava num amigo, estranho ou desafeto, havia também os xingamentos. Entre os rapazes, a troca de “elogios” era mais do que natural. Quando era pra ofender mesmo, para os “inimigos” a gente detonava, e daí o sujeito era um morfético, perebento, sacripantas, energúmeno, goiabão, xibungo, lazarento, ordinário, Zé Ruela, morfioso, fio de rapariga com guarda noturno, fiote de cruz credo com cobra dágua, e poraí ia. O povo tinha a língua afiada!


Agora, quando o recado era dirigido para os “amigos do peito”, o jeito “carinhoso” de chamar era boi sonso, songa-monga, cabeça oca, Pedro Bó, desmiolado, avoado, bocomoco, tonto, miolo mole, besta quadrada, bobo alegre, cérebro de minhoca, cabeça de vento, tantã, Mané, Amigo do Zorro eMocorongo. E para os ‘espertos”, o apelido de  bagre ensaboado, soava como um elogio.


Quem sofria mesmo eram os baixinhos e gordinhos. O primeiros eram chamados de pintor de rodapé, chaveirinho, salário mínimo, toco de amarrar jegue, anão de jardim, engenheiro de playmobil, goleiro de pebolim, Tarzan de samambaia, salva-vidas de aquário e noivo de bolo. Já com os gordinhoso numero de apelidos era um pouco menor, mas não eram menos impiedosos; Elefantinho da Shell, rolha de poço, Joquei de elefante, Mobi Dick, Hipopótamo, Bolota e Chupetinha de Baleia. E prá ridicularizar mesmo, Fininho. E acredite, não havia maldade nisso. Baixinhos e gordinhos, altinhos e magricelas, todo mundo era amigo de verdade, amigo do peito mesmo!


Entre as meninas, as coisas eram mais que complicadas. Venenosas, elas também botavam apelidos terríveis nas “amiguinhas”. Nas rivais, alguns desses apelidos são impublicáveis.Já os mais amenos, para as magras, por exemplo, eravara de apanhar coco,cobra defumada, lambisgóia outíricia esquálida. Os apelidos dado às gordinhas e as mais levadinhas,, como ainda tenho juízo, não publico nem sob tortura..


Para os meninos negros, fosse válida naquela época a Lei Afonso Arinos, meio mundo de amigos de verdade dos afrodescendentes, teriamidoparar na cadeia, inclusive eu. E de novo, me recuso publicar, até porque do jeito que o povo anda “afetado” hoje em dia, o risco de ser processado e condenado é muito sério.Daí, como ensina a sabedoria popular... prudência e caldo de galinha...


Eu tenho até hoje uma penca de amigos de mais de quarenta, cinquenta anos de amizade. Depois da minha família,eles são o meu maior tesouro. Tenho até hoje amigos “avoados”, amigos gordinhos, espertos, nipônicos, negões,afrodescendentes, branquicelose magrelos, amigos escalafobéticos, megalomaníacos, doidos varridos e performáticos, filhinhos de papai e pobres de marré-marré; massão meus amigosdesde os bons tempos de infância e juventude.


Amigos que caprichei na escolha do apelido e que me devolveram a brincadeira na mesma moeda, alguns amigos com quem um dia troquei insultos e até sopapos. 


Amigos que fechei a cara e que fiquei de mal prá sempre. Mas depois o tempo,cuidou para que ficássemos de bem de novo, pelo resto da vida. E com toda essa coisa de apelido prá lá e prá cá, ninguém foi parar num banco de psicólogo ou psiquiatra. Então, fossemos nós levar a lei de hoje, o tal do politicamente correto ao pé da letra, com certeza seriamos inimigos mortais.Mas não. Amigos que gosto tanto, que qualquer dia, só de sacanagem, vou publicara lista com os apelidos de cada um. Semana que vem tem mais. Até lá.




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