CURVA DO RIO

O VÉIO PEDRO LOBÓ

O VÉIO PEDRO LOBÓ

Por Chico Piranha

Por Chico Piranha

Publicada há 8 anos


Numa de minhas pescarias lá no São Domingos, lá por volta do final dos anos setenta, conheci o “Véio Pedro Lobó”. Morava sozinho num ranchinho de sapé na beira do rio e vivia de fazer bicos e pequenos serviços para os fazendeiros da região. Trocava peixes que pescava, raízes e garrafadas de ervas medicinais por rapadura, café, sal, arroz, pinga e outros gêneros de primeira necessidade. Tudo que ganhava era repartido meio a meio com seu fiel companheiro de jornada, um jumentinho que ele chamava de “Brioso”, que nunca cavalgou. A vida toda ia sempre ao lado dele e levava dois sacos bem leves com os peixes, ervas, raízes, garrafas e algumas latas que eram usadas como panelas.


Pedro Lobó era uma boa alma. Vivia em sintonia com a natureza. Quando se alongava em andanças prá longe do seu ranchinho e das redondezas, se o tempo estivesse firme, preferia dormir no meio do mato. Quando o tempo ameaçava chuva ou frio, procurava se abrigar junto com o “Brioso” no curral de alguma fazenda. Nunca aceitou dormir no paiol ou outro lugar melhor, que fosse fechado. Tinha que dormir em local onde pudesse levar o “Brioso” e fazer uma fogueirinha para cozinhar sua comida e fazer os seus chás.


Conta um fazendeiro da região que certo dia Pedro Lobó ficou doente. Os amigos tentaram levar ele prá Limeira D’Oeste pra ser atendido pelo médico, mas não teve jeito de convencer ele ir para a cidade. Não ia se separar do “Brioso” por nada desse mundo. Como não tinha jeito, o filho do fazendeiro que era médico veterinário resolveu aplicar uma injeção no Pedro Lobó. Na primeira tentativa a agulha entortou na pele grossa do Pedro que só via água quando chovia ou quando entrava no rio prá armar suas redes. Aí o jeito foi usar agulha de aplicar injeção no gado e é claro que doeu um bocado. Por conta disso, dizem que Pedro Lobó se alongou no mundo.


Um ano depois ele reapareceu e numa conversa com o povo, o velho pirangueiro contou que nesse tempo que ficou sumido, passou umas seis semanas de cama, com muita febre numa fazenda abandonada...


— Mas e como você não morreu de fome e sede?  Perguntou o filho de um dos fazendeiros.


— Olha seu menino, Deus é grande e cuida das suas criaturas. A minha sorte é que nunca amarro meu jumento, o Brioso, e ele pegava uma lata nos dentes e ia buscar água para mim ali no São Domingos.


— Mas e a comida Pedro Lobó, não me diga que o jumento cozinhava para você?


— Não, é claro que não, seu “doto”, eu nunca deixei ele lidar com fogo! A última alma bondosa que lá morou deixou umas galinhas prá trás, aí as galinhas foram aumentando e tinha bem umas vinte. Eu nunca tinha visto um bando de galinha tão ensinadas e inteligentes! Elas foram se aproximando da minha cama improvisada, acho que prá comer os “pernilongão” que vinham chupar meu sangue. Depois de comer bastante a galinhada se ajeitava nos meus pés e botavam os ovos, era cerca de dúzia e meia por dia. Elas eram tão espertas que depois de botar saíam bem quietinhas prá não me acordar e só iam cantar quando chegavam bem longe do ranchinho.


— Mas então você ficou este tempo todo só comendo ovo cru?


— Não, de jeito nenhum. Tá certo que a febre era forte demais, aí eu pegava e colocava um ovo em cada suvaco. Um minuto e comia ovo quente, dois minutos e eu comia ovo cozido! Eu “oia” que inté engordei uns 15 quilos!




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