Novamente escrevo sobre um tema recorrente, que me preocupa e também me é muito caro: a importância da leitura. Para que ocorra o aprendizado da leitura, temos que necessariamente passar pela compreensão de seu significado, e, portanto, necessitamos também de aprender a escrever.
Li recentemente que a Finlândia – país altamente desenvolvido e com taxa zero de analfabetismo – vai abolir a letra cursiva, que para eles tornou-se obsoleta. Crianças e jovens, segundo o grupo que apoia esse projeto,têm uma escrita muito mais ativa no computador e acreditam que não seja necessário perder tempo ensinando-osa escreverem com letra cursiva. Defendem ainda que é fundamental que a escola e os professores se concentrem na qualidade do texto e não nas formas de escrevê-lo.Esta, aliás, é uma das concepções que norteia o construtivismo: o aluno deve ser incentivado e estimulado a encontrar os meios para compreender o sistema da lectoescrita. Obviamente que as atividades motoras que o exercício da escrita possibilitadeverãoser ocupadas com outras atividades mais prazerosas, como desenho e pintura, por exemplo.
Isso, atualmente, é o que ocorre rotineiramente em muitas de nossas ações. Por exemplo, justamente no exato momento em que escrevo este texto digito-o em meu notebook, transformo-o em arquivo e envio para o jornal. Simples? Nem tanto! Para escrevê-lo precisei de um longo percurso. Não estou me referindo somente à escolha do assunto ou à pesquisa acerca do tema e a ordenação das ideias na página do editor de textos.
A ideia de ensinar através da tecnologia é inevitável, mas o que me assusta, ou melhor, me aterroriza, é a falta de compreensão da maioria das pessoas que, por ignorância ou modismo, coloca celulares, tablets e games na mão de crianças pequenas, privando-as de experiências que são anteriores e essenciais para a sua formação.
O percurso a que me referi no parágrafo anterior é fundamental para a formação física, intelectual, cognitiva e até mesmo afetiva de qualquer ser humano. Portanto, crianças precisam sugar e mastigar para aprender a falar; engatinhar, arrastar-se no chão e fazer esforços para aprender a andar. Precisam de contato com todos os elementos da natureza (água, terra, fogo e ar) através da brincadeira e do lúdico.
Montar e desmontar objetos. Ouvir (inúmeras vezes) músicas (de todas as épocas) e também aprender a fazer seus barulhinhos e barulhões; e dançar com todos esses ritmos. E ouvir (muitas e muitas e muitas)histórinhas, histórionas, e também contar as suas. Precisam viver, vestir e sentir a poesia, a arte, a fantasia e o faz de conta. Comer com a mão, se lambuzar. Sentir com as mãos, com os pés e com o corpo todo e também com o coração e com a alma. Necessitam de espaço e espaços. Criança parada é criança doente. Precisam, portanto, de muita atividade física: correr, pular, trepar, girar.... E tudo isso cercado de muito afeto, claro.
Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Manoel de Barros, Jorge Amado, Rubem Alves e Mia Couto (para citar apenas alguns dos meus autores prediletos), em muitas de suas obras nos remetem à memória da infância vivida para nos contar suas histórias. E a de todos eles, foi repleta dessas vivências.
Fica meu apelo a todos os adultos: antes de introduzir um celular ou coisa que o valha na mão de uma criança, proporcione a ela algumas das experiências acima citadas. Não serão somente os seus professores que agradecerão. Ela mesma, como todos os que passaram por essas experiências, terá nesse tempo vivido o melhor de seu tempo vivido.