Sérgio Piva

Que beleza!

Que beleza!

Por Sérgio Piva

Por Sérgio Piva

Publicada há 8 anos

Noutro dia, assistindo a um programa de televisão, chamou-me a atenção a matéria sobre o mercado econômico das frutas feias. A reportagem começa lembrando que as pessoas escolhem nas suas compras frutas, verduras e legumes em perfeito estado de conservação, não pode ter um furinho, uma mancha, um amassadinho sequer.


Entretanto, há um novo mercado em países como França e Portugal que pagam por frutas que aqui no Brasil vão parar no lixo. O primeiro exemplo é de uma associação francesa que colocou de volta ao mercado parte dos trinta por cento da produção francesa de frutas e legumes que eradescartada por ser considerada feia e servia de alimentação para animais ou, simplesmente, era jogada no lixo.


Em Portugal, igualmente, existem ações para colocar no mercado frutas e legumes que, por terem qualquer defeito, como tamanho menor que o padrão ou pequenas marcas, eram excluídos das bancas de feiras e mercados, ou tinham seu valor diminuído.


Todos esses produtos considerados feios, que têm pequenos defeitos de cor e forma, embora sejam perfeitamente comestíveis, de qualidade idêntica aos demais, cuja exigência sanitária para produção e valor nutricional são exatamente os mesmos, e crescem ao lado daqueles considerados tradicionais, só por serem “menos bonitos”, porém excelentes e de gosto muito bom, são rejeitados.


As campanhas para trazerem os alimentos feios de volta às prateleiras, em Portugal chamadas de “Frutas Feias” e na França de “Caras Deformadas”, com o slogan “O que tem de errado com a minha cara”, têm tido muito sucesso e descobriram que não há tanta rejeição dos consumidores com relação a essas frutas e legumes “feios”, pois a maioria acha que o aspecto não conta, desde que o gosto seja bom.


Assim como temos o costume de escolher a maçã mais vermelha, o tomate mais redondo, a banana e a berinjela sem nenhum machucado, a cenoura maior, da mesma forma buscamos as pessoas que nos parecem mais bonitas. Como disse um dos entrevistados naquela reportagem, nos dias atuais a lógica é a do “cada vez mais bonito”.


Não é de hoje que nos guiamos pela aparência. Talvez a intensidade tenha sido menor, quem sabe, mas o primeiro julgamento sempre é baseado na aparência.O educador japonês TsunessaburoMakiguti (1871-1944), em sua Teoria do Valor,chama a atenção para os três valores essenciais de julgamento do ser humano:o belo, o benefício e o bem.


Para Makiguti, o belo associa-se a “valores sensoriais ligados a partes isoladas da existência individual”; o benefício “refere-se a valores pessoais ligados à existência individual orientada para si mesma” e o bem se associa ao “valor social ligado á existência grupal coletiva”. A dimensão estética (belo) faz jus à dimensão sensorial, à experiência dos sentidos, importante, mas que não consolida uma experiência global do individuo. Tal dimensão faz com que os indivíduos experimentem a adoração ou admiração, o prazer e a beleza – dimensão que é constituída pela relevância dada pelos sujeitos que avaliam. Quando se trata de uma consideração sobre a conveniência ou utilidade de um objeto, temos seu valor econômico e pessoal e entramos no benefício. Por fim, quando se trata de uma avaliação de valores ligados ao bem comum, temos a dimensão do bem, a mais alta e importante, segundo Makiguti (SANTI, 2010 apud DOMICIANO, 2013).


Percebemos, segundo a teoria do Professor Makiguti, que a aparência (o belo) é apenas um dos valores de julgamento daquilo que queremos como todo, ou seja,o benefício (o bom). Se somente a aparência fosse suficiente, estaríamos completamente satisfeitos, no entanto necessitamos do bom. É comum ouvirmos as pessoas falando sobre algumas situações estruturadas apenas no belo, como “vive de aparência”, “casamento de aparência”, não sei o que de “fachada” (aquilo que está aparente) assim como outras frases da sabedoria popular que nos remete à ideia de falta de conteúdo.


O valor que buscamos nas coisas e, especialmente, nas pessoas, não se preenche apenas com a beleza e parece que, na maioria dos casos, que ela não é necessária. O escritor brasileiro Nelson Rodrigues (1912-1980), conhecedor da alma humana, como poucos, já dizia que “na mulher interessante a beleza é secundária, irrelevante e até mesmo desnecessária. A beleza morre nos primeiros quinze dias, num insuportável tédio visual.” E, com certeza, isso também pode ser dito do homem.


Sem dúvida, como nas frutas, o que nos chama a atenção primeiro nas pessoas é a aparência, o prazer visual que nos causa,ao menos para nós que temos o privilégio de ver. Mas não é suficiente, queremos nos certificar de que o sabor também é bom, que haja benefício, que existam os nutrientes necessários para nos dar energia, contribuir para nosso crescimento e para a manutenção da vida. Se conseguirmos isso, será uma beleza.




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