
Dia desses vi num programa de TV sobre carros antigos, que o primeiro automóvel fabricado no Brasil foi o Belcar, da DKW-Vemag, em 1956, o mesmo ano que começava a fabricação em série da lendária Romi-Izzetta. Lembra? O radialista Anésio Pelicioni, o Matinê, que trabalhou por muitos anos no rádio fernandopolense tinha uma Vemaguet cinza e bem humorado, dizia que “na hora de comprar é DKW (Dekavê) e na hora de vender é de DKH”.
Sempre achei que o primeiro carro fabricado no país havia sido o fusca. E por incrível que pareça, também não foi o primeiro produto da Volks. O primeiro veículo fabricado pela Volkswagen, foi a Kombi, em 1957. Só dois anos mais tarde, em janeiro de 1959, aconteceu o lançamento do Volkswagen 1200, chamado de “besouro” e mais tarde apelidado de fusquinha. Logo surgiu o bordão que garantia que “com um Fusca, gasolina no tanque, um alicate e um pedaço de arame, você iria até o fim do mundo”.
No ano seguinte, 1960, a Willys Overland do Brasil, lançava os minicarros Dauphine e o Gordini, que logo se tornaram um “must”, o sonho de consumo da juventude dos anos dourados. Naquela época, também chegava ao mercado o Leite Glória, que ficou famoso porque “dissolvia sem bater”. Não demorou muito, e o Gordini ganhou o apelido de Leite Glória. Era muito frágil. Para reverter o estrago feito pelo apelido, a Willys lançou no mercado uma campanha junto com o refrigerante Crush, sorteando um Gordini OKm para quem encontrasse a tampinha premiada. Lembro que meus tios compravam Crush todo dia, atrás da tal tampinha premiada.
Por volta de 61, chegava ao mercado o primeiro sedan de luxo fabricado aqui, o Sinca Chambord e logo depois o Sinca Tufão. Os dois modelos tinham um mini rabo-de-peixe e pneus com faixas brancas, iguais aos de cadilac importado. Velozes e potentes, logo esses carrões ganharam o apelido de “Maestro” (um conserto em cada esquina), devido à fragilidade de sua mecânica. A concorrente Willys, logo lançou o Aero Willys e pouco mais tarde o Itamarati.
Aqui em Fernandópolis, a Willys Overland do Brasil tinha sua agência que ficava no atual prédio da Carioca Estamparia, na esquina da rua Rio Grande do Sul, com a antiga Avenida da Estação, hoje Avenida Expedicionários Brasileiros. O asfalto chegava até as portas da revenda, que tinha a logomarca e o nome Willys do Brasil, caprichosamente desenhados em pedras decorativas no piso da calçada.
No ano seguinte, em 62, chegava ao mercado o primeiro esportivo 100% nacional, o Karman Ghia e mais tarde, em 67, o Puma, ambos montados pela Volkswagen. Estes sim, emplacaram junto à moçada dos anos sessenta. Tanto que naquela época, o lendário radialista Hélio Ribeiro, que apresentava o programa “Correspondente Musical”, na Rádio Bandeirantes, lançou um bordão que ficou famoso, popularizou o carro e se tornou marca de seu programa. Todo dia ele dizia: “Essa música... essa música vai para a “moça do Karman Ghia vermelho!” Diz a lenda que a “moça do Karman Ghia vermelho”, realmente existiu. Era uma loira lindíssima, secretária da diretoria da General Eletric. Diziam que ela era a paixão secreta de Hélio Ribeiro.
Mas voltando aos carrões de luxo, mais tarde em 67, a Ford lançou o Galaxie, o maior e mais luxuoso do mercado nacional. Anos depois a Ford comprou a Willys e tirou de linha o Aero Willys e o Itamarati. Nessa época, a Chrysler comprou a Sinca Chambord do Brasil e chegou fazendo barulho, lançando de cara o Dodge Dart, o Charger, e em 71, o cinematográfico Dodge Magnun, para brigar com o novo lançamento da Ford, o Landau LTD, que chegava substituindo o Galaxie. Essa história é muito longa e o nosso espaço muito curto. Um dia eu conto mais.
Encurtando a conversa, luxo nos carros dos anos sessenta era o rádio AM, isso nos modelos mais sofisticados, depois na década de 70, o emprego de opcionais se popularizou entre todas as marcas nacionais. Hoje os carros chegam ao mercado com toda parafernália tecnológica disponível. Mas fica a saudade daqueles tempos quando o Sinca, Aero Willys, Dodge Dart, Galaxie, Passat, Opala, Maverick e o Del Rey, eram carros dos ricos. Classe média andava de Fusca, Chevette, Corcel e Fiat 147. Povão andava a pé ou de bicicleta. Nisso, o mundo mudou muito, e para melhor. Semana que vem tem mais. Até lá.