Continuando nossa prosa da semana passada sobre as tradições de antigamente na época da Semana Santa, logo cedinho, no sábado de Aleluia, o povo da colônia onde morava se dividia em duas turmas distintas. Um grupo de adultos e jovens organizava junto com a criançada a confecção do boneco de Judas, para a malhação, como contei. Outra turma formada por homens e rapazes, munidos de machados, facões e serrotes, ficavam com a incumbência de cortar bambus para a montagem da estrutura da barraca do tão aguardado “Baile de Aleluia”, que depois de erguida no terreiro de alguma das casas da colônia, era coberta por encerados de lona.
Lembro que todo mundo ajudava e sempre no finalzinho da tarde a barraca ficava pronta. Logo em seguida todos rumavam para suas casas para tomar um banho prá lá de caprichado no famoso chuveiro “Tiradentes” ou de “bacião” mesmo, para depois se arrumar e ficar “nos trinks”, sempre com a melhor roupa, para fazer bonito no baile. Os homens costumavam ir a caráter, alguns com terno de linho ou de casimira, enquanto as mulheres sempre estreavam um vestido novo de chita e se maquiavam com pó-de-arroz. Pensa o quê? O povo da roça, apesar de simples, também tinha lá as suas vaidades!
Mal a noite caía e o povo da nossa colônia, das fazendas e sítios da vizinhança, ia chegando em grupos para o grande baile. As moças daqueles tempos, sempre muito recatadas, sentavam-se nos bancos de madeira que eram colocados nas laterais do barracão e ali ficavam fazendo hora, conversando com as outras. Por outro lado, os homens e os rapazes, também em grupos, se juntavam em torno da barraquinha-bar para colocar a prosa em dia e tomar um copo de xibóca, uma dose de conhaque ou uma talagada da caninha Tatuzinho, prá criar coragem e tirar as moças pra dançar.
Era o jeito de quebrar a inibição natural do matuto, sempre muito tímido e econômico nos gestos e palavras, principalmente nestas situações embaraçosas. Naqueles tempos, os namoros começavam “de rabo de zóio”, contava meu saudoso pai, com um risinho maroto. Se a moça correspondia o olhar, logo depois o casalzinho começava dançar e varava a noite no arrasta-pé. Era o jeito que começava o namoro na roça, que antigamente exigia muita perspicácia e arte para namorar. Depois, nos dias seguintes, o namoro avançava com recadinhos de boca ou bilhetinhos com declamações, levados sempre pelo mesmo portador de confiança do casal, que sempre voltava para pedir a resposta. Dos bilhetinhos, para cartinhas secretas e apaixonadas, era um pulo. Assim eram marcados os novos encontros em bailes, terços, festas e nos casamentos que aconteciam na colônia ou nas redondezas. Quase todo namoro que começava de “rabo de zóio”, sempre terminava em “casório”. E se por uma razão ou outra, a mão da noiva não era dada pelos pais, logo a pretendida “era roubada” pelo noivo. Depois de dois ou três dias de sumiço, o casalzinho reaparecia e aí era marcado o casamento de “papel passado”.
Mas voltando ao nosso“Baile de Aleluia”, sempre um pouco mais tarde chegavam os “artistas da noite”, geralmente um quarteto formado por um sanfoneiro, dois violeiros e um tocador de zabumba, moradores da própria colônia ou das redondezas. Eles se acomodavam em cadeiras que eram colocadas sobre uma ou duas mesas, no centro da barraca e invariavelmente o sanfoneiro puxava um clássico do lendário Mario Zan para abrir o arrasta pé. Depois de algumas modas, uma pausa para molhar a goela com xibóca ou um gole de vinho “Sangue de Boi” e pronto, o pau quebrava de novo. Agora, quando o sanfoneiro e violeiros não eram chegados na “água que passarinho não bebe”, passavam a noite à base de café, pão caseio ou broa de milho.
E quando tocavam os grandes sucessos de Tonico e Tinoco, então no auge da fama? Era soltar “Moreninha Linda” ou “Cana Verde” (Abre a porta e a janela/ Venha ver quem é que eu sou/ Sou aquele desprezado/ Que você me desprezou) para acontecer o chamado “limpa banco”. Ninguém ficava sentado e a poeira levantava do chão. As cordas das Alpargatas roda, as solas das botas, dos botinões e dos tamancos, se acabavam naqueles bailados alegres do sertão, onde os animados dançarinos viravam a noite até o raiar da aurora.
No dia seguinte, a festança na roça continuava com os grandes almoços de Páscoa, onde as famílias se reuniam quase sempre nos terreiros das casas, à sombra de grandes mangueiras ou paineiras. Lembro da minha saudosa “Noninha Egle” fazendo a massa de seu famoso e legítimo macarrão italiano, que depois de pronto era servido com pedaços e caldo de galinha caipira. Era de encher a boca de água, lamber os beiços e limpar o prato!
Mas havia também sempre uma leitoa assando no forno à lenha, embrulhada em folhas de bananeira, ou um bom pernil de capado, temperado no capricho. Nesse dia especial, os homens “matavam” um garrafão de vinho “Sangue de Boi” ou tomavam cervejas Antarctica ou Brahma Chopp, que vinham em garrafas empalhadas. Algumas mulheres da família tomavam cerveja preta, a famosa Malzibier, as outras faziam como as crianças e se empanturravam de Cotubaina e sodinha Ferrari.
Depois do almoço os homens se animavam jogando truco e no finalzinho da tarde, todo mundo ia para o campo de futebol que ficava pouco acima da colônia, torcer pelo time da fazenda, que sempre jogava contra um time das redondezas ou contra o time da “Vila”, como dizia o povo da roça quando se referia ao clube da cidade. Bons tempos aqueles.
Semana que vem tem mais.