OPINIÃO

Contradição no agro: enquanto Alcoeste celebra prêmio, Mercadão dos Tratores fecha as portas. A monocultura?

Contradição no agro: enquanto Alcoeste celebra prêmio, Mercadão dos Tratores fecha as portas. A monocultura?

Setor discute dependência da monocultura da cana-de-açúcar frente à diversidade agrícola regional

Setor discute dependência da monocultura da cana-de-açúcar frente à diversidade agrícola regional

Publicada há 51 minutos

Duas notícias, uma mesma semana — e uma pergunta incômoda

Alertamos: trata-se daquelas contradições que despertam teses as mais diversas – e contraditórias – e suscitam discussões intermináveis, mas cuja resolução futura indicará se a aposta local foi correta ou se as cidades circunvizinhas é que tinham razão.

De um lado, Fernandópolis celebra o reconhecimento de um de seus mais tradicionais empresários. Kosuke Arakaki, às vésperas de completar 98 anos, recebeu nesta semana o Prêmio MasterCana Centro-Sul 2026, em homenagem à sua trajetória e contribuição para a agroindústria.

De outro, quase simultaneamente, veio a notícia do encerramento das atividades do Mercadão dos Tratores, representante da Valtra no município, depois de mais de duas décadas de presença na cidade.

Duas notícias aparentemente desconectadas. Mas, olhando com um pouco mais de atenção, talvez exista entre elas um ponto de convergência: qual modelo de desenvolvimento rural Fernandópolis está construindo para o futuro?

A questão da monocultura

Nos bastidores do setor, a explicação apontada para o fechamento da unidade do Mercadão dos Tratores passa pela redução no volume de comercialização de máquinas agrícolas.

E aí aparece uma questão que merece ser discutida — ainda que não seja simples e muito menos definitiva: até que ponto a forte concentração da produção rural na cana-de-açúcar está limitando a diversificação econômica do município?

A cana movimenta uma cadeia produtiva gigantesca, gera empregos, arrecadação, demanda por serviços e possui papel fundamental na economia regional. Não há como negar sua importância.

O problema, portanto, não é a cana.

A pergunta é outra: o que mais Fernandópolis e a microrregião está produzindo?

O comparativo com Votuporanga e Jales

A unidade do Mercadão dos Tratores instalada em Fernandópolis tinha uma posição estratégica. A proposta original era atender não apenas produtores locais, mas uma ampla faixa territorial, que se estendia de Cosmorama a Santa Fé do Sul.

Com o passar do tempo, porém, outras praças regionais ganharam força.

Votuporanga, por exemplo, passou a receber novos investimentos da empresa, enquanto Jales está no planejamento para receber uma nova unidade nos próximos anos. Parte dos colaboradores da filial de Fernandópolis deverá ser direcionada para Votuporanga.

O argumento que circula no setor é que essas regiões apresentam maior diversificação agrícola, com presença de diferentes culturas e um universo mais amplo de pequenos e médios produtores.

Se essa leitura estiver correta, surge uma questão estratégica para Fernandópolis: a cidade está perdendo negócios porque deixou de oferecer diversidade suficiente ao seu próprio campo?

A conta que não aparece no discurso

Uma concessionária de máquinas agrícolas não é apenas uma loja.

Ela movimenta vendedores, mecânicos, técnicos, transportadoras, prestadores de serviços, peças, manutenção, impostos e toda uma cadeia indireta.

Quando uma empresa desse porte deixa a cidade, o impacto não se resume à fachada fechada.

E há outro detalhe simbólico: Fernandópolis, que historicamente exerceu papel de polo regional, começa a assistir a determinadas atividades migrarem para municípios vizinhos.

A pergunta que fica é inevitável: estamos perdendo a condição de centro regional ou apenas atravessando uma reorganização natural do mercado?

Talvez um pouco dos dois.

O paradoxo Arakaki

É justamente aqui que o reconhecimento de Kosuke Arakaki ganha um significado ainda maior.

O empresário, um dos mais longevos em atividade na história de Fernandópolis, construiu sua trajetória ligada ao setor sucroenergético, mas também participou de iniciativas que ultrapassaram os limites da agroindústria, incluindo investimentos e articulações relacionadas ao desenvolvimento urbano, empresarial e educacional. Isso, afora a atuação em causas sociais.

A homenagem recebida em Ribeirão Preto da Procana Brasil mostra a força que a atividade canavieira possui e a relevância de empresários que ajudaram a construir esse setor.

Mas o fechamento do Mercadão dos Tratores coloca a outra face da moeda sobre a mesa.

Se a cana é forte, mas outros segmentos rurais encolhem, estamos diante de uma vocação econômica ou de uma dependência econômica?

Essa é a discussão.

Fernandópolis versus cidades vizinhas

Enquanto Fernandópolis convive com uma forte concentração da atividade rural na cana-de-açúcar, municípios próximos procuram explorar diferentes nichos agrícolas e, consequentemente, ampliar o mercado consumidor de máquinas, insumos e serviços.

O resultado aparece na movimentação empresarial.

E aqui está talvez o maior alerta para a classe política e para o setor produtivo: não basta comemorar quando uma grande empresa chega. É preciso entender por que outras estão indo embora.

Também não significa que o fechamento do Mercadão seja exclusivamente consequência da monocultura. Existem fatores logísticos, estratégias corporativas, custos operacionais, localização das unidades e decisões internas que podem pesar tanto quanto a realidade agrícola.

Mas a coincidência é suficientemente relevante para provocar o debate.

A pergunta que fica

Fernandópolis tem localização privilegiada, infraestrutura, tradição comercial e posição estratégica no Noroeste Paulista.

Mas essas vantagens precisam ser permanentemente renovadas.

Se a cidade pretende continuar sendo polo regional, talvez seja hora de discutir não apenas quanto a cana produz, mas também o que poderia ser produzido ao lado dela.

Porque uma economia forte não é necessariamente aquela que possui o maior setor.

É aquela que consegue sobreviver quando um setor enfrenta dificuldades.

E, neste momento, entre um prêmio que celebra a força da agroindústria e uma concessionária de máquinas que anuncia sua saída, fica uma pergunta que talvez incomode, mas que precisa ser feita:

Fernandópolis está apostando na sua vocação agrícola ou ficando excessivamente dependente de uma única vocação?

A resposta — como sempre na política e na economia — virá alguns anos depois da aposta.

Por: Beto Iquegami

O texto é de livre manifestação do signatário que apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados e não reflete, necessariamente, a opinião do 'O Extra.net'.

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