A Folha de São Paulo de 26 de novembro estampou como manchete, uma pesquisa que afirma que a maioria das pessoas, considera jovem até os trinta e sete anos e velho a partir dos sessenta e quatro anos.
Já escrevi acerca do tempo. Cronológico, é apenas uma questão empírica: nascemos, vivemos e morremos. Todavia, entre a vida e morte há um espaço, esse será ou não significativo, acredito, mediante nossas escolhas, nossas ações. Nosso tempo sempre será hoje.
Recordo-me, aos dez anos, via meu pai e outros homens na faixa dos cinquenta anos, portavam-se como velhos, sentiam-se velhos. Aos sessenta começa o processo de cumprimento de “horas-extra na terra”.
No entanto, aos cinquenta e sete, hoje, me vejo muito diferente. Explico-me: não me considero um jovem, óbvio, porém, não me sinto a caminhar para a velhice.
Então: o que é ser jovem? O que é ser velho?
Ao meu ver, passa de longe pela cronologia. É algo que está em nossas sensações, nossas escolhas, nossas ações, nossos quereres. A limitação física, até mesmo, num dado momento, a degeneração do organismo, ocorrerá. Contudo, mentalmente, envelhecemos ou nos mantemos jovens se assim o desejarmos.
Me remeto ao poeta Vinicius de Moraes, morreu aos sessenta e seis anos, em 1980, a época, considerado velho. Todavia, nunca agiu como tal. Morreu em decorrência de excessos: de bebida, de prazer. Os “abusos” abreviaram-lhe a existência. Será?
Se porventura tivesse escolhido uma vida regrada, sem álcool, sexo comedido, sem abusar da comida, muitas horas de sono, talvez vivesse até os noventa. Valeria a pena?
É questão de escolha. Não estou a julgar.
Cazuza morreu vitimado pela AIDS, aos trinta e dois anos. Se vivesse de forma comedida, sem drogas, bebidas, sexo com segurança, possivelmente, estaria vivo até hoje.
Teria com uma “vida plana” e “comedida”, composto as pérolas que realizou para nosso Cancioneiro? Duvido. Aliás, tenho certeza que não.
Cazuza morreu jovem? Vinicius morreu velho?
Meses perto de completar trinta e sete anos, tornei-me pai pela primeira vez. Era jovem?
Quando meu filho Perseu nasceu, ele é o mais novo, estava prestes a completar quarenta anos. Era jovem? Caminhava para a velhice? Caminho para a velhice?
Confesso: não sou jovem. Tenho quase sessenta anos. Porém, estou muito longe de considerar-me velho. Não falo no sentido físico, orgânico, refiro-me ao processo mental. Se é jovem ou velho, acredito nisso, mentalmente.
É perfeitamente possível, alguém aos trinta e sete anos, às vezes muito menos, agir como um velho. Apenas existir. Cumprir os rituais cotidianos de maneira mortificante. Uma vida tediosa e simplista.
Ao contrário, alguém com mais de sessenta ou setenta, ainda que não cronológica ou fisicamente, não é velho, na medida em que possui uma vida rica em ações, atitudes e realizações.
Entendam: não é um discurso “otimista” ou de autoajuda, “para cima”. Abomino essas coisas.
Também discordo da conversinha de “melhor idade”. Bobagem. A melhor idade, do ponto de vista físico, é aos dezoito.
Os que nos faz velhos, é o ressentimento, o rancor, a frustração, a covardia de nos mantermos escondidos e tristes por não nos permitirmos dar saltos em nossas vidas.
Ao passo que aquele que encara a vida, vive-a, mediante escolhas, supera os ressentimentos e rancores, não se permite remoê-los, não é velho. Ainda que haja limitação física.
Enfim, o quero dizer é: o tempo não é empírico, cronológico. É muito mais. É aquilo que escolhemos e vivemos. Realizamos para além de bem e mal.
Querido Fernando Pessoa, é transpor seu poema “Aniversário”.
A parada é o velho Nietzsche!
Sim à vida, àquela para além do humano, demasiado humano.
Que um exemplo: aos oitenta e sete anos, Clint Eastwood continua jovem mentalmente. Se recusa a ser velho, mentalmente.
Quero ser igual a ele.